A Convenção internacional da ONU, sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências, ratificada pelo Brasil com estatos Constitucional pelo decreto legislativo nº 186/2008, reconhece e regulamenta a idéia da participação a tiva das pessoas com deficiência nas decisões acerca deste segmento de pessoas. É a tradução da máxima “nada sobre nós, sem nós”.
Porém, ao meu ver, um dos fatores que limitam o nosso crescimento participativo na construção de uma realidade mais justa e igualitária, é nossa própria dificuldade de compreender que algo precisa ser feito e que os agentes principais deste trabalho somos nós mesmos.
Há algum tempo, iniciei minha participação nas críticas e questionamentos direcionados ao projeto Dosvox, mantido pelo NCE/UFRJ e coordenado pelo professor José Antonio dos Santos Borges, o que gerou minha expulsão sumária das listas de discussões relativas a aquele projeto e, mais tarde, uma acusação de preconceito a uma funcionária do projeto que profere palestras totalmente incompreensíveis e sem nenhum recurso auxiliar, por ter paralisia cerebral e comprometimento sério na fala.
Ainda assim, alguns questionamentos foram direcionados a ouvidoria da UFRJ, o que gerou uma resposta do professor Antonio Borges, onde ele afirmava, dentre outras coisas, que a grande maioria dos cegos não têm qualificação profissional e que o dosvox não poderia evoluir devido a existência de um acordo de cavalheiros junto a Micropower, empresa privada que desenvolve um precário leitor de telas. O desenrolar dessa história e as afirmações do coordenador do projeto dosvox podem ser consultadas no próprio site da ouvidoria daquela Universidade, sob o protocolo 106.156.961.130, no link http://www.ouvidoria.ufrj.br/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=3
O
tempo passou e absolutamente nada mudou, ainda que grande parte da comunidade tenha, a época, se indignado com tais afirmações. Todas as cartas relativas a tais questionamentos foram, como sempre o são, totalmente ignoradas pelos funcionários do NCE, notadamente pelos que trabalham diretamente no projeto Dosvox.
Recentemente, no dia 27 de Agosto de 2011, foi apresentado um leitor de telas livre, denominado de Liane TTS, desenvolvido pelas instituições Serpro e UFRJ. Cabe esclarecer que Liane TTS nada mais é do que um sintetizador de voz (e não um leitor de telas), e o leitor que acompanha o sintetizador no pacote distribuído pelo Cerpro, nada mais é do que o NVDA, projeto livre e de código aberto, com sintetizadores bastante superiores ao Liane TTS, que, aliás, já é distribuído com o pacote Dosvox há mais de 3 anos e sempre foi alvo de críticas dos usuários, por ter uma péssima qualidade de voz.
Esta ferramenta, lançada pelo Cerpro em conjunto com a UFRJ (mesmo núcleo que lança ideologias acerca do Dosvox), está sendo divulgada pela imprensa como a salvação das pessoas cegas de todo o mundo: Algo revolucionário que vem modificar para melhor a vida destes pobres coitados, que agora poderão contar com um leitor de telas para, dentre outras coisas, acessar os sites do governo Brasileiro.
Volto a destacar que Liane TTS é um sintetizador de péssima qualidade, e que utiliza o NVDA, um leitor de telas opensource, produzido fora do Brasil e que vem crescendo muito. Em outras palavras, o Sr. Antonio Borges construiu uma ferramenta precária, implementou em outra ferramenta que já existe e que tem sido alvo de elogios pela comunidade de usuários cegos, e está ganhando promoção de sua imagem e outras vantagens com tal façanha.
Rui Batista, um notável programador português, publicou um artigo onde explica e questiona este contexto de forma minuciosa. Dessa vez, Antonio Borges respondeu, com o mesmo romantismo marketeiro de sempre. Não respondeu, objetivamente, a nenhuma das questões propostas pelo Rui. Não explicou como é que o nome do leitor NVDA não aparece em nenhuma publicação referente ao Liane TTS, fazendo entender que o Liane TTS é o próprio leitor de telas e omitindo qualquer menção ao NVDA.
Na resposta, Antonio afirma que LianeTTS é um dos primeiros frutos da parceria entre NCE/UFRJ e Cerpro. O perigo ronda não só pela existência da falsa propaganda acerca do LianeTTS, como também sobre a possibilidade de vir futuras falácias e “produtos” que, na prática, são contraproducentes e caminham em sentido contrário a real inclusão das pessoas com deficiência visual.
Antonio afirma ainda que o LianeTTS “foi construído, baseado na técnica de junção de difones, que é uma das mais simples”. Os valores recebidos pelo NCE para a produção do LianeTTS foram tão ínfimos a ponto de se utilizar uma tecnologia “das mais simples” para se produzir um sintetizador de voz?
Antonio insiste em reafirmar que “Os sintetizadores de voz, como o LianeTTS, sim, viabilizam o uso dos computadores por deficientes visuais, assim como as linhas braille(…)”, mas se já existem opções muito melhores e livres, para que gastar o dinheiro público produzindo algo que o próprio Antonio afirma ser “das mais simples”? Estas perguntas não foram respondidas na romântica carta publicada como “resposta” aos comentários do Rui Batista, e que, na prática, não respondeu nada…
A ONCB, órgão de representação máxima da pessoa cega, foi provocada por uma outra usuária – com título de doutora, diga-se de passagem- sobre o tema e infelizmente ainda não se manifestou a respeito.
Desconheço se algum usuário com deficiência visual e de razoáveis conhecimentos na informática foi consultado acerca deste “fruto” da parceria entre Cerpro e NCE/UFRJ. Também não sei se o presidente do Cerpro, que tem dado diversas entrevistas ressaltando o incrível milagre que o LianeTTS vem trazer a vida dos usuários cegos, tem conhecimento profundo desse contexto.
O que sei é que só nós podemos mudar isso. Nós, e apenas nós, podemos divulgar a realidade sobre mais essa “produção” que traz mais prejuízos a imagem da pessoa cega do que benefícios reais de utilização das tecnologias computacionais.
Estas pessoas só estão levando vantagem as nossas custas porque nós permitimos que elas permaneçam lá.
Link para o artigo publicado por Rui Batista: http://www.megatts.com/2011/10/02/liane-tts-apenas-mais-um-sintetizador-de-voz/
Link para o artigo de Joana Belarmino: http://www.blogtecnovisao.com/2011/10/liane-tts-minha-replica-ao-seu-criador-antonio-borges/
Tags: Cerpro, deficiência, dosvox, leitor de telas, LianeTTS, NCE/UFRJ, NVDA, pessoas com deficiências, sintetizador, tutela, UFRJ
Olá, Diniz.
Não sei se já ouviste falar a meu respeito.
Sou Marlin, o tradutor da documentação do NVDA para Português do Brasil.
Depois de ter lido seu artigo e os outros, resolvi também publicar algo sobre issso no lerparaver, pois creio que mesmo sendo ele um cite de Portugal, há muitos brasileiros que o acessam.
Além disso, quanto mais vozes, melhor o couro.
Segue o link:
http://www.lerparaver.com/node/10744